“Uma saudade dos mil anos que passamos, ou das três semanas. A loucura
de gostar tanto pra tão pouco ou simplesmente a loucura de tanto acabar
assim. Fora tudo o que guardei de você, me restou a grande amizade que
você guardou por mim. Sua ligação depois, quando me encontra. Sua mão
estendida. Sua "lamentação" pela vida como ela é. Sua gentileza disfarçada
de "vergonha" por não gostar mais de mim. A maneira que você tem de pedir
perdão por ser mais um cara que parte e assim rouba um coração. Você é
o mocinho que se desculpa pelo próprio bandido. Sempre aceito suas
considerações mas é apenas pra ter novamente o segundo. Como o segundo
do meu nariz na sua nuca quando consigo, por um segundo, te abraçar. O segundo do seu nome na tela do meu celular. O segundo da sua voz
do outro lado como se fosse possível começar tudo de novo e eu boboca e
você me fazendo rir e tudo o que poderia ser. Então aceito a sua enorme
consideração pequena, responsável, curta, cortante. Aceito você de
longe. Aceito suas costas indo, mas nunca vindo.
O último fio de cabelo preso no pé da minha cama, seu cheiro impregnado em minha roupa. Não é que aceito. Quem gosta
assim não come migalhas porque é melhor do que nada, come porque as
migalhas já constituem o nó que ficou na garganta. Seus pedaços estão
colados na gosma entalada de tudo o que acabou, menos nos meus suspiros. Não se digere amor, não se cospe amor, amor é o
engasgo que a gente disfarça sorrindo de dor. Aceito sua consideração
de carinho no topo da minha cabeça, seu dedilhar de dedos nos meus
ombros, seu tchauzinho do bem partindo para algo que não me leva junto e
nunca mais levará, seu beijinho profundo de perdão pela falta de
profundidade e proximidade. Aceito apenas porque toda a lama, toda a raiva, toda suposta dor e toda a indignação se calam para ver você passar.”
(G.R.P- Adaptado)
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